Foda-se
Leandro perdeu as pernas. Não gostava de usar essa palavra, mas quando perguntavam, era o que respondia. Não gostava porque dava a impressão que elas deviam estar por ai, em algum lugar, numa esquina, quem sabe na boca de um cachorro. Definitivamente não gostava.
Outra coisa que Leandro não gostava era de pepinos, na verdade nunca havia comido nenhum deles, só comera chuchus, o qual não gostou e como achava chuchus iguais a pepinos, não gostava dos tais pepinos.
No final de janeiro ele viu na tevê que algumas pessoas que perdiam membros ainda sentiam coceiras e dores na parte amputada. Leandro nunca sentira nem coceiras, nem dores, e ficava intrigado com isso.
Passava os dias se concentrando para sentir algo.
Ao fim de quatrocentos e quarenta e três dias, enquanto o refrigerador descongelava, descobriu a coisa mais importante da vida para ele: o inferno. O inferno não era um lugar, nem um momento, mas simplesmente o nada. O inferno era o que não existia e que ainda assim nos fazia falta, e muita. Dito isso ao seu cachorro Laurus, riu sem parar, gargalhando, como se descobri-se o sentido da vida, e é claro que para ele descobrira. Ainda estava soluçando de tanto rir quando a bala atravessou sua cabeça. Perdera a cabeça, mesmo não gostando da palavra.
Everson Kleim
Postado no Ap da Osvaldo - 2003






