Conto
- ...eu conto.
- Conta o que?
- Conto os azulejos.
- E quantos tem nesta parede?
- Uns troscentos.
- Como assim troscentos? Não existe essa palavra.
- Claro que existe, significa "muitos".
- Eu sei disso.
- Então por que pergunta?
- Queria saber exatamente, isso é muito vago. Ah deixa isso pra lá.
- Deus do céu... tu tá me levando a loucura, minhas costas doem neste chão gelado.
- É tão bom, gosto de sentir meus ossos latejando... e esse cheiro de latrina...
- Minha cabeça dói..
- Sabe eu gosto muito de ti.
- Por que diz isso?
- Só gostando mesmo de uma pessoa e que pode se aceitar isso que você faz.
- Mas eu não to mais agüentando, não consigo mesmo
- Eu vou embora, está me ouvindo?
- Você é quem sabe...
- Sei...
Levantando-se
- Como você pode não se dobrar por um segundo se quer, só pra dizer que gosta de mim?
- Eu nunca te cobrei nada.
- Sim, claro! E por esse fato eu não devo te cobrar mais nada também?
- É o que eu acho...
- Tem razão... eu não preciso disso...
A porta bate violentamente
- Quinhentos e oitenta e um.
Everson Kleim
* Publicado no Ap da Osvaldo - 2003






