O tempo
Quem poderia pensar... Escrever sobre o tempo é um "baita" chavão. Me parece quase inútil, mas ao mesmo tempo inevitável: em certo momento, acabamos chegando a isso. É um daqueles temas que servem para testar o estilo de um escritor (no sentido amplo da palavra, somos todos escritores); o modo como escrevemos sobre o tempo define quem somos.
Dizem que o tempo passa mais rápido quando estamos nos divertindo... Parece ser verdade, pelo que tenho vivido e ouvido falar. Se for assim, fiquei pensando em como o tempo foi inventado... Quero dizer, se tivéssemos satisfação absoluta, não haveria tempo, tudo seria um instante num lampejo, um não-tempo que não passa, que simplesmente é. Então, como foi no início dos tempos? Será que nós seres humanos começamos a ver o tempo passar somente quando o sofrimento se tornou um problema? Quando nos demos conta a morte? Diz o poeta: "toda a dor vem do desejo de não sentir dor". Os aborígenes australianos falam do "tempo dos sonhos"; será isto?
E dizem que o tempo passa mais devagar na infância, onde tudo é novidade e absorve a atenção. Mas fica difícil saber, porque as crianças não podem falar sobre isso, visto que nem têm uma noção coerente de tempo, por estarem ocupadas demais com coisas mais sérias, como o brincar, a imaginação, a curiosidade e a liberdade.
Dizem também que, hoje em dia (não especificando desde que dia exatamente), o tempo vem passando mais depressa. Isso vem junto com aquelas outras questões de mudança de tempo no sentido do clima -- que hoje faz mais calor por causa da camada de ozônio falhando e do microclima urbano descontrolado -- e também na cultura -- que há muita informação na mídia e mesmo em nossas conversas, que as descobertas tecnológicas (principalmente na computação) vão numa correria, que temos que trabalhar e estudar cada vez mais -- enfim, que tudo está acelerado. Mas pode ser que esta é a perspectiva dos adultos de hoje falando o que seus avós não tinham coragem ou paciência ou despudor de dizer, que achavam o tempo da (sua) infância muito mais lento.
Seguindo esta lógica, as crianças não se divertiriam, o que não faz sentido. Porque, se o tempo delas é mais lento, seria por ser menos divertido. Bom, vocês já viram uma criança que não quisesse ser logo um adulto? É mais ou menos o mesmo quando iniciamos alguma coisa, alguma tarefa, estágio, ciclo: queremos logo ver o resultado, chegar ao final, e isso faz do percurso um vagar enorme e arrastado... Talvez por isso, por ter simultaneamente motivos para acelerar (diversão) e desacelerar (impaciência) o tempo, a mente das crianças acabe chegando a conclusão de que o tempo nem existe.
Quando penso no ano inteiro que passou (2005), até me ocorre mesmo que o tempo está passando muito depressa. Parece que "não deu tempo" de fazer muita coisa ou, ao menos, tudo que eu gostaria. Entretanto, quando penso em cada coisa que aconteceu ou, pelo menos, nas coisas todas que me recordo, vejo claramente que não -- que foi sim um tempão, que "um ano" é até um nome pequeno para tudo que coube dentro dele.
Talvez seja apenas uma questão dos referenciais que escolhemos usar. Quando temos os ponteiros do relógios para apoiar nossos argumentos, fica fácil, não há melhor advogado; porém, quando temos outros critérios em jogo, temos que nos esforçar, "perder" tempo com o problema. De qualquer modo, no final, todo tempo acaba, e as marcas dele que restam noutros tempos não são mais que uma breve legenda do tempo enquanto estava vivo e acontecendo.
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PS: Só escrevi isto aqui por estar com um tempo livre. Mas, assim que terminei, tive a nítida impressão de já ter falado sobre este tema num Blog antes.






