Sentimentos
Este texto que segue foi escrito pelo meu namorado Everson no começo do nosso namoro (quase três anos atrás), no já extinto Ap da Osvaldo.
Talvez ele nem saiba, mas tenho guardado comigo esse texto, e sempre que leio me emociono bastante.
Para Lu
Morreu algo, ainda não sabia o que era, nem quando foi, mas sentia. Sempre se sente esse tipo de coisa, mesmo que não tenha explicação, se sente.
Chorei, abaixada no chão do quarto, chorei. Segurando-me na cortina do box sentada ao chão frio e molhado, chorei.
Não sabia porque, nem quando comecei, mas chorei. Não sabia, esse tipo de coisa não tem explicação.
E lá no box, com a água a me tocar, sem permissão, sem consentimento, ela escorria, descia e entrava no meu corpo e me tocava, impiedosa, lasciva. Mostrando minha fragilidade que tanto tentava esconder na máscara pesada de pó compacto e no batom claro em lábios vermelhos e ávidos, tentava.
Lembrava garotos a me tocar no muro de trás da escola, sem minha permissão, não verbal, só meu silêncio consentia, como a água a escorrer, vinham um por vez e se esfregavam, me empurrando contra o muro, sem se preocupar se eu gostava daquilo, ou não, eu calada, dizia sim. Esfregavam-se, provavam do meu corpo, do pouco que cobiçavam, e iam embora, sem olhar pra trás: amanhã tem mais - pensavam eles, pensava eu. E na volta da escola, aqueles velhos sujos e nojentos se esfregando no meu corpo, como os garotos da escola, aquele cheiro de suor, os corpos pesados, o onibus lotado, sem se preocupar se eu gostava daquilo, eu calada, dizia não.
E como uma coisa ruim que recheia o estômago e precisa ser expulsa, vomitei medos, angustias e traumas que escorriam pelo ralo do banheiro fazendo voltas e pedindo o meu perdão, pelo medo de não poderem existir mais. Minha boca minada por um gosto forte de melanclia, lembrava leite talhado, ferro enferrujado, coração partido.
Levantei do box e sai para o quarto, pingando amrguras e ressentimento que escorriam de meu corpor, viravam lamentos e subiam as paredes escondendo-se nos cantos escuros do teto, como que temerosos pela sua vida, que agora se esvaía. Troquei de roupa, a outra que tinha listras de desejos reprimidos não servia mais. Sentei na sala para ler algo, mas as revistas e jornais só noticiavam fragilidade e medo, por isso não li, tomei um chá amargo de vergonha e saí de casa vendo um por-do-sol colorido de auto-estima, respirei uma noite de promessas, dancei com as novidades e adormeci nos braços de um estranho com meu sorriso de deixam-me em paz.
Te amo






