A sala dos pássaros
Não estou com muita inspiração ultimamente para postar, então deixo o João Cuenca falar por mim!
Ótimo final de semana!
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A porta enverga, rompe a manhã estalando dobradiças, relincha a tábua curtida por anos de silêncio, desparafusa lembranças e cai; o baque se repete, solta farpas, vem e volta até romper a madeira em duas partes que tombam no chão; abrem caminho para uma luz branca que, da esquadria, corre até a sala onde pássaros cegos se chocam contra as paredes, resfolegando entre piados roucos; suas penas flanam e caem lentas até costurarem um tapete de restos e vôos malogrados no solo, os pássaros presos no ar tentam fugir da claridade por uma janela fechada; num canto da sala estamos a revirar gavetas, álbuns de fotos e cartas, mas não são nossas as fotos nos cadernos de capa dura, amarrados com capricho por laços de fita vermelha, não são nossas cartas carimbadas em correios de além-mar, não conhecemos seus remetentes e histórias familiarmente alheias, de caligrafia delicada e recorrente que lemos com olhos agitados.
O vôo dos pássaros se multiplica e nos envolve numa nuvem de penas que entram pelos nossos olhos e bocas, entre os dedos, dentro da roupa; o alvoroço das asas, seu cheiro salgado de antes de ontem, o sangue dos animais mortos, vinho doce derramado aos nossos pés, o toque da pele esgarçada e macia, pelos nossos ouvidos o farfalhar das asas e os últimos estertores dos bichos, como lenços de seda caindo do teto nos expulsam em direção à luz branca que, da esquadria, corre até a sala onde pássaros cegos se chocam contra as paredes, resfolegando entre piados vazios.
Somos invadidos pela luz até nos confundirmos com seu branco de holofote: nós somos a luz branca, e, com os olhos cerrados pela claridade, ouvimos a voz involuta de um senhor:
“A pior coisa de estar morto é saber que o mundo inteiro continua funcionando normalmente, saber que todas as pessoas seguem acordando para o trabalho, indo ao cinema, se apaixonando, alimentando, aproximando e afastando, num movimento contínuo do qual não se faz mais parte. É uma sensação de alheamento terrível, não compensada pelo sofrimento e oração dos seus familiares: os filhos, depois de alguns meses deprimidos, acabam por seguir com suas vidas como você mesmo fez quando seus pais morreram; em relação às nossas mulheres, temos que encarar o fato: por mais que elas se desesperem agora, em poucos meses (ou anos: para um morto tempo não faz diferença), estarão nos braços de outro homem – o próximo marido, outro homem que sentirá seu cheiro e toque. É do que mais tenho saudade, sabe? O cheiro do seu corpo molhado pela minha língua e vinho tinto: doce e salgado, lenços de seda caindo do teto, anjos batendo asas no meu rosto. Parece que foi há poucos minutos, mas hoje eu não saberia identificar seu odor ou textura. Virei lembrança guardada em gaveta, e as lembranças não têm nenhum dos sentidos dos homens. Só sinto saudade. O morto normalmente entende tudo isso, mas eu não quero entender. Não vou entender.”
Voltamos à sala dos pássaros onde, pela janela, o sol se põe carregando os restos dos mortos. Acordamos abraçados pela madrugada com as portas de casa abertas, uma lufada de ar varrendo a poeira do chão.
João Paulo Cuenca
Colunista da TPM






