Inacabados
Mãos cortadas
Comiam bolachas, e elas eram pretas, bem escuras, parecendo um pedaço de carvão que deixava as mãos sujas como as paredes de um forno à lenha, picumã. sabe?
- Bem e era somente essa a refeição servida, digo, não tinha mais nada além disso?
- Nada. As bolachas eram compradas na cidade, mas só o homem mais velho saia para buscar, eles diziam que era mais barato comprar bolachas do que plantar o seu alimento.
- Toda a semana ele chegava com um saco enorme na carroça cheio das malditas bolachas. As crianças iam correndo em sua direção, todas com aquele sorriso de dentes podres, pretos!
- Por favor, tente se acalmar, fixe-se somente nos fatos principais, é muito importante entende?
- Desculpe-me, entendo sim.
- Continue, de onde quiser.
- Sim, esta bem, as vezes tomavamos um suco de frutas de um gosto terrível, a mulher dizia vir de uma árvore a qual eu nunca vi no lugar, quando indaguei que árvore, ela dizia serem romãs que nasciam no quintal, mas nunca realmente cheguei a vê-las.
- Hum, romãs e quando foi isso?
- Quando cheguei na casa, eu estava com um grupo em uma excurção, estavamos visitando o centro-oeste.
- Você os conhecia?
- Na verdade não, era um grupo da faculdade, mas eram todos oriundos de outras turmas, não conhecia a todos intimamente.
- Porque decidiu ir?
- Eu nunca fiz amigos na faculdade, ficava com medo de me reprovarem, de me condenarem.
- Porque te condenariam?
- Sei-lá, por eu ser feio, por eu falar bobagens.
- Você não é feio, e sabe disso, você tem um aspecto muito simpático, chamativo, do tipo intimidador.
- Tome cuidado no seu depoimento, isso pode só te prejudicar, ok?
- Ok.
- Vamos retomar, a excursão.
- Bem, tomamos um ônibus na capital que rodou o dia inteiro, era um ônibus de linha, o motorista nos orientou a descer no último entroncamento, já estava anoitecendo a essa hora e decidimos acampar naquela noite em um descampado que circundava a estrada,
Everson
Novembro/2002






