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quinta-feira, julho 21, 2005

Inacabados

Mãos cortadas Comiam bolachas, e elas eram pretas, bem escuras, parecendo um pedaço de carvão que deixava as mãos sujas como as paredes de um forno à lenha, picumã. sabe? - Bem e era somente essa a refeição servida, digo, não tinha mais nada além disso? - Nada. As bolachas eram compradas na cidade, mas só o homem mais velho saia para buscar, eles diziam que era mais barato comprar bolachas do que plantar o seu alimento. - Toda a semana ele chegava com um saco enorme na carroça cheio das malditas bolachas. As crianças iam correndo em sua direção, todas com aquele sorriso de dentes podres, pretos! - Por favor, tente se acalmar, fixe-se somente nos fatos principais, é muito importante entende? - Desculpe-me, entendo sim. - Continue, de onde quiser. - Sim, esta bem, as vezes tomavamos um suco de frutas de um gosto terrível, a mulher dizia vir de uma árvore a qual eu nunca vi no lugar, quando indaguei que árvore, ela dizia serem romãs que nasciam no quintal, mas nunca realmente cheguei a vê-las. - Hum, romãs e quando foi isso? - Quando cheguei na casa, eu estava com um grupo em uma excurção, estavamos visitando o centro-oeste. - Você os conhecia? - Na verdade não, era um grupo da faculdade, mas eram todos oriundos de outras turmas, não conhecia a todos intimamente. - Porque decidiu ir? - Eu nunca fiz amigos na faculdade, ficava com medo de me reprovarem, de me condenarem. - Porque te condenariam? - Sei-lá, por eu ser feio, por eu falar bobagens. - Você não é feio, e sabe disso, você tem um aspecto muito simpático, chamativo, do tipo intimidador. - Tome cuidado no seu depoimento, isso pode só te prejudicar, ok? - Ok. - Vamos retomar, a excursão. - Bem, tomamos um ônibus na capital que rodou o dia inteiro, era um ônibus de linha, o motorista nos orientou a descer no último entroncamento, já estava anoitecendo a essa hora e decidimos acampar naquela noite em um descampado que circundava a estrada,
Everson Novembro/2002


 
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